A adoção em Portugal

20-10-2016 12:24

Do ponto de vista psicológico, a adoção se fundamenta na premissa de que a integração a uma nova família possibilita à criança reconstruir sua identidade a partir do estabelecimento de um relacionamento satisfatório com as novas figuras parentais. Esses pais substitutos podem oferecer à criança uma base segura para o desenvolvimento de suas potencialidades, proporcionando a satisfação de suas necessidades básicas e uma elaboração dos traumas provenientes da rutura dos primeiros laços afetivos (Pereira & Santos, 1998). No entanto, para que haja a formação de vínculos saudáveis nesse novo relacionamento, é imprescindível que os pais adotivos estejam preparados para receberem um novo membro em sua família, o que requer uma série de adaptações do contexto familiar que vão exigir capacidade de tolerância e permeabilidade a mudanças (In dos Santos, Manoel Antônio, Raspantini, Renata Loureiro, da Silva, Letícia Araújo Moreira, & Escrivão, Mariana Visconti. (2003). Dos laços de sangue aos laços de ternura: o processo de construção da parentalidade nos pais adotivos. Psic: revista da Vetor Editora, 4(1), 14-21. Recuperado em 20 de outubro de 2016, de https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-73142003000100003&lng=pt&tlng=pt).


No âmbito do trabalho de campo profissional, tenho vindo a observar que, apesar de se falar em teoria, que os pais adotivos são apoiados no  decurso do processo adotivo, a realidade prática é outra.


Estas crianças (em média), trazem já uma história passada, mas aquando institucionalizadas, vão à escola e diariamente comparam-se com os seus pares, e, até com o pessoal que trabalha nos lares e que em geral tem família, filhos e afins. Desejam ansiosamente uma família também.


Rapidamente tudo parece ser fantástico: os pais adotivos anseiam pelos "filhos" e  os "filhos anseiam pelos "pais".


Os primeiros tempos, são excelentes. São adultos e crianças que desejam em conjunto uma família, e, que se estão a conhecer e a tentar corresponder no seu máximo potencial.


No entanto, após alguns meses... as crianças que ainda não efetuaram o luto do abandono, e, ainda não estão vinculadas de forma segura a estes adultos como pais (e estes adultos que agora são legalmente pais não estão vinculados de forma segura a estas crianças legalmente filhas).


E... de repente, as crianças são o problema. Malcomportadas, ingratas, com a culpa de serem assim por causa do seu passado.


Esquece-se que há algo tão precioso e imprescindível por trabalhar. As crianças, têm a vinculação dos pais adotivos por fazer versus o abandono dos pais biológicos, adicionado à vontade versus medo de se vincularem aos seus novos pais (adotivos). Os pais adotivos por sua vez, não tiveram a experiência de desenvolver vinculo com estes filhos desde o tempo "de se formarem e se desenvolverem nas suas barrigas" e não poderão voltar atrás no tempo, adicionalmente também estão cheios de medo de se vincularem a estas crianças versus a imprescindibilidade de se criar este laço vinculativo seguro.


Tenho presenciado resultados incríveis nestas famílias quando se trabalham as temáticas dos vínculos.


No final estes pais refletem a frustração de afinal não terem sido verdadeiramente preparados para amar vinculativamente de forma afetiva estes seus filhos, para receber e aceitar os seus filhos de forma incondicional. Sentem que foram eles mesmos abandonados neste tão grande desafio da parentalidade adotiva.


Deixo aqui os meus parabéns a todos os pais que heroicamente optam por adotar estas crianças e a todas as  crianças que heroicamente anseiam ser adotadas.


Este ainda é um enorme desafio que temos pela frente!


Que venha o desafio e que cada um de nós possa contribuir para o vencer.


Ana Cristina Santos


PS: este artigo foi escrito para desafiar-nos a cada um de nós e não deve ser tido como uma generalização de todos os casos de adoção