EMDR-Aplicações Clinicas

26-04-2013 13:12

Aplicações Clínicas do Modelo de Terapia EMDR

O cliente que procura o tratamento com o modelo de terapia EMDR tem usualmente como objectivo obter resultados pessoais profundos e eficazes num período que seja o mais curto possível e simultaneamente uma maior estabilização nos seus sistemas familiar e social, podendo ser aplicado individualmente e/ou em grupos de 2 ou mais pessoas.


É eficaz para tratar a Perturbação de Stress Pós-Traumático, reprocessar pensamentos e memórias perturbadoras ou problemas psicológicos de sobreviventes de traumas (abuso sexual, crimes, combate bélico, catástrofes), assim como fobias e desordens causadas por experiencias vivenciais, proporcionando em pouco tempo efeitos clínicos profundos e estáveis (Shapiro, 2009).


Estudos empíricos têm vindo a evidenciar o modelo terapêutico EMDR com bons resultados em clientes vítimas de um único acontecimento traumático (Rubin, 2003) com apenas algumas sessões (3 a 8) de 90 minutos, outros têm vindo a indicar que os resultados alcançados se mantêm após intervalos de seis e 18 meses.


Vários autores têm descrito o modelo terapêutico EMDR como um novo tratamento psicológico para traumas que é capaz de facilitar uma redução rápida e permanente de pensamentos e de sentimentos angustiantes (Carlson, Chemtob, Rusnak, Hedlund, & Muraoka, 1998; Wilson, Becker, & Tinker, 1995, 1997), o qual para além de reduzir o desconforto psicológico, ainda tem como consequência funções e atitudes mais adaptadas.


Atualmente o espectro da aplicação do modelo continua a ampliar-se com sucesso, sendo já aplicável em situações de depressão e luto, disfunções sexuais, pensamentos recorrentes/lembranças dolorosas/memórias perturbadoras, ansiedade e/ou medos, perturbações do sono (pesadelos e/ou terrores nocturnos, enurese nocturna, etc.) problemas familiares, dificuldades de relacionamento interpessoal (situações de conflito emocional, casamento/divórcio/separação, emprego, etc.), dificuldades de aprendizagem e/ou problemas escolares, perturbações da alimentação (anorexia, bulimia, obesidade), obsessões /compulsões, baixa auto-estima, Bullying (humilhação, exclusão, difamação e agressão na escola), gaguez, timidez, sentimentos perturbadores (ciúmes, culpa, tristeza, raiva, vergonha, etc.), perturbações de dor (fibromialgia, dores recorrentes e persistentes, formigueiros, espasmos, dor fantasma, etc.), sensações olfactivas e gustativas perturbadores (por exemplo, cheiros e gostos que não existem), perturbações psicossomáticas e/ou de pânico, dores crónicas, preparação para cirurgias e/ou recuperação de procedimentos cirúrgicos, instalação de recursos positivos, estratégias de coaching, (aprimorando o desempenho de empresários e gerentes), havendo já relatos de resultados positivos relatados no tratamento de adições, fobias e dor (Goldstein & Feske, 1994; Grant, 2000; Grant & Threlfo, 2002; Henry, 1996).).


A maioria das pessoas pode beneficiar deste modelo psicoterapêutico, excepto nos casos em que exista risco de dissociação grave de personalidade ou algum tipo de perturbação psicológica/neurológica grave (por exemplo, perturbações de carácter psicótico, como a esquizofrenia, pessoas com perturbação bipolar e/ou perturbações de personalidade sem estabilização-inclusive medicamentosa).


Pacientes cardíacos e gestantes devem ter autorização médica devido ao risco acrescido de emoções fortes e/ou intensas provenientes de histórias passadas.


O modelo EMDR é indicado para crianças (inclusive bebés de colo, onde a mãe, pai, ou cuidador passam simultaneamente pelo processo), jovens e adultos.


O número de sessões necessárias para que se percebam melhorias no estado de saúde, depende de pessoa para pessoa, pois cada um de nós é único e tem um modo próprio de reagir e de enfrentar as suas dificuldades.


Por vezes basta uma/algumas sessões para resolver uma determinada queixa, outras vezes são necessárias mais sessões, em virtude de uma escalada sucessiva de queixas que se vão surgindo encadeadas à queixa inicial.


Isto porque no decorrer da resolução da primeira queixa outras questões antes obscuras emergem para serem solucionadas, acarretando um tratamento mais abrangente.


O cliente é parte activa sendo extremamente importante a sua disponibilidade para o seu processo de cura emocional, confiando na metodologia e permitindo que o cérebro faça o seu trabalho sem julgar se o que aparece está certo ou errado.


Existem inúmeras vantagens no procedimento terapêutico com o modelo EMDR:

i) Rapidez (um fluxo rápido e intenso do processamento agiliza o tratamento);

ii) Mudança global (interligação das regiões relacionadas independentemente de sabermos quais os elementos que estejam a ser integrados e em que proporção, essa integração caminha em direcção à cura);

iii) Não é fundamental saber-se qual é o trauma, o sistema de processamento de informação e adaptação tem a capacidade de rastrear o problema rumo à cura;

iv) Exposição reduzida do cliente, que muitas vezes tem vergonha de falar sobre o que aconteceu, no EMDR a necessidade de falar é reduzida uma vez que o foco está no processamento;

v) Fisiologia, pois assenta num processo fisiológico que caminha em direcção à coerência/harmonia interna do corpo e à harmonia/coerência entre o corpo e o meio ambiente, sendo observável através de tomografia (SPECT).


Método de Tratamento:

O método EMDR é um modelo integral e eficiente no tratamento de experiências perturbadoras incorporando diversos aspectos de terapias sistémicas, psicodinâmicas, experienciais, comportamentais e corporais (Shapiro, 2009).  


Denominada muitas vezes como psicoterapia de reprocessamento, o modelo foi inicialmente idealizado como psicoterapia breve e focal.


Atualmente já se observa no modelo terapêutico EMDR uma possibilidade de cura emocional para qualquer situação em que possamos estar envolvidos, uma vez que num sentido mais amplo, o modelo procura diminuir significativamente o sofrimento humano e assenta num carisma de assistência ao ser humano e à sociedade em geral na perspectiva de realização do potencial existente para um desenvolvimento integral.


Na terapia EMDR pressupõe-se que cada um de nós possui um sistema de Processamento Adaptativo de Informação (PAI) que é próprio e único (intrinseco e extrinseco), um sistema fisiológico de processamento da informação através do qual as experiências e as informações novas são processadas para alcançar um estado mais adaptativo.


Essa informação é armazenada em redes de memória (que podem conter pensamentos, imagens, registos auditivos, olfactivos, sensações corporais, relacionados entre si).


Cada rede de memória organiza-se de acordo com a sua relação com o evento mais antigo.


Se durante determinados períodos de desenvolvimento cruciais da nossa vida, as experiências traumáticas e as necessidades interpessoais forem continuamente negligenciadas, estas poderão criar bloqueios na capacidade adaptativa do sistema de informação, bloqueios esses que poderão impedir a resolução de eventos traumáticos ou perturbadores.


Quando a informação armazenada nas redes de memória relativas a uma experiência traumática ou perturbadora não é completamente processada, torna-se possível o surgimento de reacções disfuncionais.


O processamento para estados adaptativos resulta numa aprendizagem, no alivio da perturbação emocional e somática e na possibilidade de se conseguirem respostas adaptativas e integradas.


O processamento da informação é facilitado por tipos específicos de estimulação sensorial bilateral, referidos por Shapiro (1995, 2001) através de dados que obteve pela experiência e observação como estimulação bilateral e estimulação da atenção dual.


O modelo EMDR não é um tipo de hipnose, o cliente tem liberdade para interromper os movimentos bilaterais em qualquer momento do processo terapêutico, e quando a informação é integrada de forma positiva e resolvida de forma adaptativa está disponível para ser utilizada no futuro, isto é, o cliente não virá a sofrer de amnésia (Parnell, 1997).


Alternando-se a estimulação visual, auditiva e táctil (da esquerda para a direita) em combinação com outros passos específicos do procedimento do modelo EMDR, é incrementado então o processamento da informação.


Em geral, as estratégias voltadas para estimular o acesso à informação que terá sido disfuncionalmente armazenada (e em alguns casos, à informação adaptativa) carecem de combinação com estimulação bilateral para produzir o Processamento Adaptativo da Informação.  


Os procedimentos fomentam um estado de equilíbrio ou de atenção dual entre a informação interna a que se tem acesso e a estimulação bilateral externa, pelo que o cliente experimenta, simultaneamente, a lembrança perturbadora e o contexto presente.


A combinação dos procedimentos do modelo EMDR com a estimulação bilateral tem geralmente como resultado uma diminuição da intensidade das imagens da lembrança perturbadora e da emoção relacionada (a essa memória), facilitando o acesso a uma informação mais adaptativa e possibilitando novas associações dentro das redes da memória (e entre elas).


Parte-se de um princípio básico - a saúde existe dentro de todos nós - e  o modelo terapêutico EMDR acede aos bloqueios causados pelas imagens, crenças e sensações corporais negativas, dessensibilizando-as e reprocessando-as, permitindo que o estado normal (de saúde) do cliente volte a ocorrer (Parnell, 1997).


Os procedimentos do modelo EMDR seguem um protocolo estruturado e específico que visa a focalização dos diversos componentes da memória traumática e uma reavaliação, antes durante a após o processamento das lembranças perturbadoras e traumáticas e dos estímulos a elas associados (Shapiro, 1995, 2001).


O protocolo incorpora oito fases que compreendem o uso de movimentos oculares e outras formas de estimulação esquerda-direita (Shapiro, 2009).


A estimulação bilateral visual, auditiva ou táctil (dependendo do que o cliente prefere) parece activar o sistema nervoso parassimpático, auxiliando a pessoa a dessensibilizar e a integrar rapidamente a memória perturbadora.


Durante o reprocessamento, o cliente observa, controla e actua em todo o processo.


Por ser um reprocessamento que envolve as conexões neurológicas, o modelo EMDR pode ser visto como um facilitador do restabelecimento de determinadas redes neurológicas que num determinado espaço-tempo, passaram a funcionar de um modo diferente do que seria esperado (resultando em alterações de hábitos, relacionamentos interpessoais, forma de pensar, etc.).


A procura do Processo Adaptativo de Informação (PAI) facilita ao terapeuta um procedimento para identificar os acontecimentos passados que estão a contribuir para o problema, os acontecimentos actuais que o desencadeiam, e as competências e recursos internos que necessitam ser incorporados para uma vida plena e saudável (Shapiro, 2002).


Com o propósito de alcançar efeitos mais abrangentes, o protocolo básico de tratamento é constituído três etapas: passado, presente e futuro.


Após a resolução adaptativa da informação dos eventos passados, processam-se então estímulos actuais capazes de provocar (ainda) perturbação, e, por fim, são processadas as situações futuras com o intuito de preparar o cliente para Processamentos Adaptativos de Informação em possíveis circunstâncias futuras semelhantes.


O campo da pesquisa (Maxfield e Hyer, 2002) tem reforçado que o grau de fidelidade na aplicação dos procedimentos está intimamente relacionado com o resultado alcançado, pelo que a evidente fidelidade na aplicação do procedimento e na adequação do protocolo é considerada fundamental, tanto na realização de pesquisas como na aplicação clínica do EMDR.


O cliente que procura terapia através do modelo terapeutico EMDR poderá procurar junto de cada Associação EMDR (Nacional/Internacional) um Terapeuta Certificado em EMDR de forma a ter maior segurança no sucesso terapêutico.


No site de cada associação usualmente está disponivel essa informação.

Referências Bibliográficas

       Carlson, J. G., Chemtob, C. M., Rusnak, K., Hedlund, N. L., & Muraoka, M. Y. (1998). Desensitization and reprocessing for combat-related posttraumatic stress disorder Eye movement. Journal of Traumatic Stress, 11, 3-24.

       Goldstein, A., & Feske, U. (1994). Eye movement desensitization and reprocessing for panic disorder: A case series. Journal of Anxiety Disorders, 8, 351-362.

       Grant, M. (2000). EMDR: a new treatment for trauma and chronic pain. Complementary Therapeutic Nursing and Midwifery, 6(2), 91-94.

       Grant, M. & Threlfo, C. (2002). EMDR in treatment of chronic pain. Journal of Clinical Psychology, 58, 1505-1520.

       Henry, S. L. (1996). Pathological gambling: Etiological considerations and treatment efficacy of eye movement desensitization/reprocessing. Journal of Gambling Studies, 12, 395-405.

       Maxfield, L., e  Hyer, L. (2002). The relationship between efficacy and methodology in the treatment of PTSD with EMDR. Journal of Clinical Psychology.

       Robin, A. (2003). Unanswered questions about the empirical support for EMDR in the treatment of PTSD: A review of research. Traumatology, 9, 4-30.

       Parnell, L (1997). Transforming trauma. New York: Norton.

       Shapiro, F. (1995). Eye Movement Desensitization and Reprocessing, Basic Principles, Protocols and Procedures. (1st ed.) New York: The Guilford Press.

       Shapiro, F. (2001). Eye Movement Desensitization and Reprocessing, Basic Principles, Protocols and Procedures. (2nd ed.) New York: The Guilford Press.

       Shapiro, F. (2002). EMDR and the role of the clinician in psychotherapy evaluation: Towards a more comprehensive integration of science and practice. Journal of Clinical Psychology, 58(12), 1453-1463.

       Shapiro, F. (2009). Desensibilizacion y reprocesamiento por medio de movimiento ocular (EMDR) [Eye movement desensitization and reprocessing (EMDR). Pax Mexico: L.C.C.S.A.

       Wilson, S. A., Becker, L. A., & Tinker, R. H. (1995). Eye movement desensitization and reprocessing (EMDR) treatment for psychologically traumatized individuals. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 63 (6), 928-937.

       Wilson, S. A., Becker, L. A., & Tinker, R. H. (1997). 15-month follow-up of eye movement desensitization and reprocessing (EMDR) treatment for psychological trauma. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 65 (6), 1047-1056.        

       Internet:

       https://www.emdr.com/shapiro.htm
       https://www.emdr.com/efficacy.htm
       https://www.amenclinics.com/brain-science/spect-image-gallery/spect-atlas/images-of-treatment/